Bêbados, psicanalistas, sexo e noites insones; Ovos mexidos, diálogos pós-morte e pessoas que têm merda na cabeça; Animais da fazenda, Afrodescendentes cheios de lascívia e pescarias. É isso que você encontra por aqui.
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terça-feira, 16 de fevereiro de 2010 TRIO, episódio 1: "-Três camas de solteiro, por favor."

Férias na praia: Caio, Paulo e Pedro alugam um apartamento numa cidade vizinha no litoral. A experiência de sentirem-se livres e responsáveis por eles mesmos em uma cidade estranha dá a esse episódio a sensação da maturidade a caminho. Não que eles se importem com toda essa bobagem de "criar responsabilidade"... Pelo menos, não por enquanto. Ainda que lhes sobrassem tempo pra crescer, o estômago agora rugia e a fome era grande. O futuro dos três dependia de uma decisão: Quem vai comprar a comida?

O cheiro da dúvida que infesta o apartamento de 25m² só não é mais forte que o desespero de sentir o nada sendo digerido pelo intestino. E a dúvida, caro leitor, não cheira bem.


-... Vai tu então, Pedro.
-Mas o quequê que que é isso?
-Vai tu buscar um dog pra gente. Tem aqui 15 pilas, traz o troco COM a notinha, tu não vai nos engambelar de novo.
-Tá louco! To muito cansado, cara... Caminhei pra caramba, hoje.
-Onde tu foi?
-Eu saí por aí.
-Podia ter trazido comida...
-Não sabia que vocês queriam comer, ué!
-Pedro, são 8 da noite. Desde a uma e meia, quando a gente saiu da praia, eu venho dizendo que tô com fome.
-E por que TU não foi buscar comida?
-Não tive tempo.
-Mas tu tava fazendo o quê, Caio? A gente saiu da praia e veio direto pra cá, quando chegamos, tu já tava aqui.
-Eu tava resolvendo umas coisas...
-'áteamerda... Um sai "por aí" e o outro vai resolver "coisas"... A gente parece que não conversa, só troca informações vagas. 'ôrra, a gente planejou tudo juntos! Quem sabe eu também não saio pra "armar uns troços".

-... Na volta traz uns dog pra galera.
-É, isso aí! Traz troco de bala, pode ser.
-Não tava falando disso... Quero dizer que vocês não tão tendo o sentimento de viver em conjunto nem de companheirismo que eu tinha em mente pra essa viagem...
-Cara... Tu tá certo.

-Ah, sei lá, né meu... Eu paguei 6 pilas pra vaquinha da janta! O Caio mal deu 4, tu devia dizer isso pra ele...
-É, mas eu paguei a cerveja ontem...
-Eu não bebi cerveja ontem, cara.
-É, nem eu...
-Ah, sei lá. Lembro de ter bebido e de ter pagado, eu devo ter oferecido pra vocês.
-Ofereceu, sim. Ligou às 3 horas e 12 da madruga e disse: "Tô aqui numa festa no outro lado da cidade, tá um troço muito louco, vem pra cá!"
-Viu? Eu não lembro disso, mas lembrei de vocês na hora...
-Calma, não terminei... "Como? Vocês não tem carona? Pega um táxi! Ah, espera... Tinha um dinheiro ali em cima e eu peguei que tava sem trocado, hehe... Mas ainda dá pra vir a pé, é pertinho, eu acho. Espera... Hmm... Sei. Aparentemente é uma festa fechada. A gente se vê amanhã, falou."

-Então foi isso?

-É, 5 horas depois, o pedro saiu pra surfar e te encontrou só de cueca na praia.
-Daí tu me trouxe a bermuda, aquela?
-Na verdade, tentei te acordar antes. Gritei, empurrei teu ombro, te dei uns tapas no rosto, uns bem fortes, até, e depois desisti. Voltei pra buscar a bermuda e a camiseta.
-Desistiu?
-Na verdade, derrubei a prancha em cima de ti e saí correndo, porque pensei que tu ía acordar. Mas aí tu não--
-DERRUBOU A PRANCHA EM MIM?!?
-Ah, foi sem querer, eu ía te dar uns chutes e deixei ela em pé na areia, quando vi só deu o "pá!"
-Mas que merda, e não falou nada? Tu podia ter me dado uma concussão, eu podia ter morrido e tu saiu correndo?
-O importate é que tu tá inteiro, meu, e aqui com a gente... Tu só vê o lado ruim...
-Humpf... Tá, vamo vê logo quem vai lá.

-Eu peguei o café da manhã, tô fora.
-Eu fiz o almoço. E sequei a louça de ontem. Tô com crédito na casa.
-Fui eu quem-- Esperaí, CAFÉ DA MANHÃ?!?
-É, na praia...
-Eu não comi nada na praia, cara...
-Nem me ofereceram nada, meu cérebro e fígado tavam em off, e eu só na agüínha mineral de canudinho.
-Ah, eu ofereci pra vocês, sério.
-Acho que não, cara, eu não lembro de ter comido coisa alguma.
-É.

-Não, cara... Peguei um picolé e coloquei na tua frente. Na verdade foram três. "Três deliciosos picolés por apenas um real. Compre neste carro que está passando perto de você. Picolés DuPólo." Tinha um pra cada um.
-Tu tá falando sério?
-Claro! Eu ainda pensei: "Um pra cada, os guris vão querer me pagar um monte de coisa depois."
-Tu me ofereceu um de milho verde, caramba.
-E daí?
-Tu comeu o de morango e de abacaxi.
-Eu não gosto de picolé de milho verde. Não há ser humano que entre numa sorveteria e peça picolé de milho verde, não há.
-Tu me disse que era o único que tinha! Eu que não ía comer aquilo!
-Tá bom, amanhã pego um picolé de qualquer sabor pra cada um, tá feito?

-Ok, mas amanhã é amanhã, e eu tô morrendo de fome agora!
-Eu to arrotando de fome, meu! To sentindo meu estômago encolher! Eu acho que não to sentindo minhas extremidades, meu cabelo... Já to sentindo a vida desaparecendo do meu corpo!!! Preciso de glicose, sal, vitaminas e nutrientes necessários pra viver, com uma salsicha no meio e molho de tomate... Ah, meu, vão buscar logo...
-Vamo fazê o seguinte, então: pegamo o número da lancheria e ligamo pra trazer pra cá, é o jeito mais prático; só que, obviamente, o mais caro também.

-Então?
-Então liga, alguém sabe o número?
-Pior que nem tem lista telefônica aqui... Ô Pedro... Dá uma olhada ali da janela...
-Como assim?
-Só pega o número da placa.
-Como assim?! Mas só da pra ver do outro lado da rua...

-A placa da lancheria que fica do outro lado da rua.

-Tu tá falando que tem uma lancheria do outro lado da rua? E ninguém quer atravessar ali e pegar alguma coisa? E NÃO tá chovendo? Algum de vocês é foragido da polícia ou algo assim?
-É. Por quê? Tu iria?
-Claro que não! Eu botei 6 pilas pra vaquinha do Dog, tenho certos direitos...

-Pega o número, Pedro.
-'Cês tão achando que eu tenho cara de Office boy, estagiário, corinho?
-Com essa preguiça e essa barba mal feita, tu nos dá motivos...
-Tá, liga aí:TRÊS-SEIS-VINTE E TRÊS-QUATRO-OITO-NOVE.

-Aham, aham... Pedro?

-Oi.

-Que mais?

-Mais o quê?

-O resto.

-De quê?

-De que O QUÊ, CARALHO! Falta um número da lancheria.
-Ah, tá, tá... Mas eu não sei qual é.
-Não sabe como, cacete?!? Fugiu da escola em que série?
-Haha... Tem uma árvore na frente. Não tem jeito. Já tentei as outras janelas daqui, não dá pra ver.
-Mas que droga!
-Ah, não, meu!
-Báh, é isso... Morri, cara, não to aguentando, chama um padre e me dá uma extrema unção... Digo, chama uma prostituta e me dá a últimazinha, quero morrer como um homem deve morrer.
-Pára, olha só... São 10 números, se a gente tentar a sorte, dá pra acertar.
-Eu não tenho mais cartão no celular.
-Nem eu.
-O meu estragou. Eu botei na geladeira depois de uma festa, semana passada. Não perguntem.
-Tão fácil e ao mesmo tempo tão difícil, 'cês pararam pra pensar nisso?
-Não, acho que o meu cérebro tá sendo digerido pra me dar mais alguns segundos de vida antes de eu estrebuchar de inanição. Sério, não sinto minhas amídalas! Ah, espera, eu tirei elas ano passado.

-Acho que eu vou dormir.
-Acho que eu vou ligar pra virem me buscar.
-Acho que eu não vou resistir mais, cara... Vou fazer um Miojo, mesmo, foi mal, caras. Não pensei que fosse tão fraco.
-Nããão, meu! Isso é só pra emergências de verdade, e se a gente ficar sem comida um dia desses?
-Esquece, na próxima eu busco comida. Hoje não, hoje não.

-Tá, faz pra três.

Pedro levanta e liga o fogão. Coloca a água numa panela e tira os pacotes de macarrão instantâneo do armário, agora barriga ronca mais alto do que a tevê. 5 minutos e meio. Todos comem. Seguem três suspiro e um arroto. Paz na terra, novamente; não há guerra, não há mortes e as criancinhas africanas não trabalham como escravas para a Nike. A vida é bela e colorida novamente e tudo tem uma solução neste mundo: Miojo.

-Bá, cara, não tava aguentando. Juro que mais dois minutos e eu teria ido buscar alguma coisa na lancheria...

terça-feira, 8 de dezembro de 2009 Histórias de Reis e Rainhas, parte 2

-Mas quem autorizou esta bazófia?!?
-Foi a velha surda -disse um dos guardas, logo voltando seus olhos para o companheiro.
-Eu não acredito! Mas o General era nossa garantia! E agora está morto! Ah, se vocês não formassem um casal tão bonitinho, eu mandava cortar-lhes a cabeça!
-hehe, obrigado, nós sabemos...
-Mas então... Você queria saber das nossas intenções, não é mesmo?
-Eu quero saber é da minha cerveja e o porque dessa sala ainda estar uma bagunça se há mais de 12 mulheres aqui, sem contar as duas "purpurinadas", ali...

A expressão de todos foi mais ou menos: "Isso é pegadinha? Cadê a câmera?! Só pode ser pegadinha..."

-Recomendaria ao senhor que controlasse esse seu vocábulário, que quem está com o abacaxi no pescoço aqui, é o senhor mesmo.
-Que porcaria de ameaça é essa? Um abacaxi no pescoço?! E vão me torturar com o quê? me fazer lavar a louça que eu sujar se não entregar meu reino?!?
-Haha, senhor engraçadinho... Não lembro de ter casado com um bobo-da-corte, haha...
-Diga-lhe que iremos castrá-lo!
-Como assim, castrá-lo? De novo?
-Ele não é eunuco, guria! Ele só fazia amor com uma de nós, a mais "formosa", aquela piranha! Não gostava do resto! Ah, se ela não tivesse sido tão útil ao nos abrir os olhos, não teria pena de jogá-la no fogo junto com ele!
-Boa idéia! Jogue ele ao fogo!
-Isso! Fogo! Fogo! Fogo! Ai, tenho que dizer que antes eu não gostava de vocês, mas agora percebo que nós seremos melhores amigas pra sempre!

Arrastado pelos guardas portão afora, o rei é atirado em cima de uma imensa fogueira de São João. Não era época para festividades Juninas, mas o Rei gostava de ver a fogueira sempre acesa
durante o ano. Chame isso de ironia. Viu, só! Queima agora, maldito, queima! Anarquia! Punk Rock extremo! Uahr! É isso aí, porraaaaa!

-Não! Querida! Queridas! Me soltem-- Eu-- Amo todas vocês! Juro que sim! Aaaahhh!

Finalmente, depois de muito se debater e gritar, o rei desfalece em meio às chamas e seu corpo é consumido pelo fogo. O povo se ajunta em volta da fogueira, tentando entender qualé a daquelas malucas que botaram fogo no Rei.

-Qualé a de vocês, hein? Por que fizeram isso?!
-Como assim? Ele era um homem terrível! Explorava as pessoas e só se importava com seus próprios prazeres! Chegava em casa e ia logo pedindo "querida, cerveja!"; "querida, pernil!";"querida, meu banho está quente?";"querida, tire os pêlos da minha orelha!"
-Mas ele era sábio! E com ele, nós éramos uma nação estável e que continuava a melhorar mais e mais! Há 5 anos, 5 reles anos, não tínhamos nenhuma agricultura! Hoje são campos e campos! O que falar da segurança, então? Não havia mais crimes, pois a pobreza estava quase extinta! O que me diz disso?
-Bom, vocês não acham um crime ele usar um casaco de pele de animais? Cadê o respeito com a natureza?
...
-Pode ser um pecado capital, um crime, uma heresia, mas não fossem essas mantas, já teríamos morrido de frio!
-Então bota mais lenha nessa fogueira!
-Ei! Deixa essa conversa boba de lado! Diga-me, mulher, o que é que vai ser de nós! Quem vai assumir o governo? Não há nenhum grupo dissidente aqui, todos éramos a favor do rei...
-Eu te digo o que vai ser de vocês! Meninas, vamos lá!...

Foi então que as mulheres tomaram o poder, e depois o deixaram, instaurando uma república anarquista. Foi a primeira experiência de sucesso nesse tipo. Foram anos de alegrias, liberdade, fraternidade e tudo isso de graça, sem impostos, autoridades ou opressões de qualquer tipo. A ideologia foi se enraizando mais adentro da alma dos habitantes, e depois de alguns meses, até os mais velhos se entregaram à vida sem limitações e sentiram uma vez mais o fulgor jovem de estarem vivos e se abrirem à novas experiências.

Porém... Sempre há um porém. A fogueira estava mais alta naquela noite. Assim como a cabeça das pessoas. Estavam queimando dinheiro e uniformes da segurança (embora realmente fosse um crime queimar aquele terninho da luí vitoum, da coleção de outono daquele ano... Um cri-me!) e quaisquer outros adereços ou objetos que simbolizavam a submissão do homem à outros homens ou instituições. Vinho foi distribuído para todos e muitos dormiram ao relento, ao som de violinos e flautas que os outros, acordados (mas nem por isso mais sóbrios) tocavam. Não se sabe ao certo o que foi o causador, mas as chamas se espalharam e o castelo pegou fogo. Digo, literalmente. Não sobrou uma viv'alma pra contar história. Todos morti-nhos. Que pecado.

Notas: Há, logo no início do texto, uma inclinação machista do narrador, que vai "amolecendo" e, já no final, parece que compactua com as esposas, "muda de time". Achei muito interessante, já que não tinha percebido isso enquanto escrevia... Acho que acabei simpatizando com as personagens durante a escrita. Mas não amoleci, de jeito nenhum! Sou é macho! Eu juro! Eu... É melhor parar por aqui...

sexta-feira, 20 de novembro de 2009 Histórias de Reis e Rainhas, parte 1

Não se sabe ao certo até hoje, o que levou à queda do reinado do Rei * IV, O Queridão,durante o século XV, em uma região relativamente remota da Grande Britânia. O que se sabe, é que houve uma conspiração meticulosamente enjambrada para desestruturar o governo vigente e instaurar uma ditadura patriarcal de orientação religiosa onde valores como distribuir doces à crianças no Halloween e depois negá-las assistência odontológica só para transformá-las em adultos banguelas (pois assim desejava seu deus, o digníssimo e honrado "Azul, Banguela e Careca", ou ABC pros faixa). A proposta era boa, não há como negar. O que aconteceu realmente? Quem eram os conspiradores? Qual foi o fim da história? Ainda há espaço para outra piada? São perguntas que apenas a história responderá, aquela safada.

Enquanto ela não se manifesta, ficamos aqui com uma situação que bem que poderia ser a que aconteceu realmente:

O Rei * IV tinha doze esposas oficiais e todas compareciam aos eventos da corte. Certa vez, num jantar informal, um dos generais (o mais faixa do rei) do seu grande exército, perguntou para uma delas o porquê de ele ter a escolhido para ser a primeira esposa, que logo explicou que era pela sua incrível habilidade em lavar dois pratos ao mesmo tempo com uma esponja só. Naquele tempo se casava por conveniência, a vida era mais simples.

É claro que o grupo começou a cacarejar incontroladamente, dividindo impressões e motivos sem muita relevância até chegar em pauta o episódio da novela do dia anterior (exibido nos anfiteatros reais pela companhia teatral Globo). Então, com um bater de palmas, o rei, de saco cheio já, silencia suas esposas e pede outra cerveja. Ouve-se um resmungo ao fundo: "Gordo preguiçoso! Mamãe estava certa..." O rei ignora sorrindo e dá uma piscadinha para o general.

Numa atitude mais tendenciosa, aquela que deve ser a mais... "Formosa" esposa, aproveitou o silêncio coletivo para gabar-se:
-Ele diz que eu transo melhor!

Ouve-se apenas a risada do general e murmúrios de estranheza das outras esposas. O clima se torna pesado. O rei chama a segurança real:
-O negócio vai feder.

Do fundo, uma das esposas, a mais impulsiva, logo viu-se passada pra trás, e
-Mas ele me disse que era eunuco!
...(silêncio constrangedor)
...(o general tenta esconder as risadas com a mão)
-Eu sabia!
-Seu cachorro! Quero o divórcio!

-Grande bosta! Eu nunca te quis mesmo!
-Puta!

-Não falei, não falei? Falei, não falei?!? - De fato, a #2 tinha falado. Mas sendo a fofoqueira do reino, ninguém dava um tostão pelo que dizia.
-O que é "eunuco"?
-Como é quié?! -esta era surda.
-E não é?
-É, falou o mesmo pra mim!
-Comigo, o mesmo

-Pra mim, também!
...
-Mas você é irmã dele!
-E o que isso tem a ver?
-Como é quié?! - a surda, mais uma vez.
-Calaboca, sua velha surda!
-Olhaqui, não me chama de gorda, sua vaca!
-Quem você está chamando de vaca, sua vadia do caralh*?
-Elba Ramalho de c* é rolha.
-Ai, é impossível da gente se entender, de tão surda que é!
-Como?!? Sim, sim... Com duas colheres de açúcar, por favor.
-Ah, deixa pra lá.
-Café ou chá? Se decida logo, menina...
-Eu vou buscar logo seu chá, anciã.
-Ah, vá você!

Ao levantar-se, a esposa #7 nota que o Rei está tentando sair na maciota, e alerta as outras:
-O REI ESTÁ TENTANDO SAIR NA MACIOTA! - a #7 era daquelas que falavam a primeira coisa que dava na telha.
-Segura ele, que a casa vai cair!
-E pega o general bonitinho também!
-Ah, garotas, obrigado pelo elogio, mas creio que isto não será necessá-- Thwump!

Armadas com frutas e vegetais, a legião de esposas habilmente domou os seguranças, que se chamavam Adolfo e Benito, e -pasme! Eram um casal gay. Puxando um papo sobre o vestido de uma delas, depois de uma longa discussão, chegaram à conclusão de que cetim é di-vi-no e usar seda é como "vestir uma roupa feita de prazer"; Também decidiram que os seguranças teriam direito a um guarda-roupa para cada estação e que nunca repetiriam a combinação do ano passado.

Depois de liberados os seguranças cor-de-rosa, que agora observavam tudo de mãos dadas e apoiando a cabeça no ombro um do outro, o harém voltou ao ponto de partida, o rei e o general.
-Agora vocês são nossos reféns! Obedeçam nossas ordens ou vão sofrem as consequências!
-Quais são as suas reivindicações?! -bradou o rei, confuso e furioso por estar confuso.
-As nossas reivindicações?!? Hm... Queremos a paz mundial, o respeito entre os povos e que a China e os outros países comunistas como Coréia do Norte e Japão percebam que estão errados e sendo ruins para sua população endêmica.

...

-ACABA COM ESSA PUTA DE UMA VEZ! - Bradou a esposa surda, confusa e furiosa por ter deixado derramar chá na sua roupa nova.
-Querida, você é a coisinha mais linda dessa cidade-estado inteira! Teu rostinho seria perfeito se detrás dele houvesse algum resquício de cérebro...
-Alguma coisa me diz que você está ironizando as minhas palavras. Você não fazia isso, você mudou, temos que discutir a relação, porque assim, não dá.
-Na verdade, sou eu, a esposa #3, quem está dizendo isso pra você. E estou bem aqui atrás.
-O QUÊ?!? TERRORISMO POR ANTRAZ??! - a surda, uma vez mais, em um ataque de fúria. A jugular do pescoço da velha se dilata e, tal qual um homem-bomba, parece querer explodir.
-Queridas, que tal me soltarem e veremos o que podemos fazer acerca disso, ok?

-Tudo bem, mas e o que faremos com o General?
-Não sei, primeiramente, apenas me solte que eu estou com um pouco de dor nas canelas...
-Boa idéia! JOGUEM ELE PELA JANELA! DEFENESTREM-NO! - a surda berra ensandecida, espumando pela boca, já com sintomas de raiva canina.

Os guardas de pronto atenderam às ordens da velha surda e largaram o pobre generalzinho, que ainda era virgem e tinha jurado dar umazinha antes de morrer. A vida é injusta e seus sonhos se despedaçam antes que você perceba. Chupa essa, Augusto Cury.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009 Obstinação Indomável

Ricardo Cross-Kraemer Harmônico, ou Dinho C. K. H., era intrincadamente perseverante. E era perseverante por ser vaidoso. E era vaidoso por ter as sombrancelhas não-tão-bem separadas, havia uma ponte peluda e negra onde deveria haver apenas a curva do nariz. "Se a cara não ajuda, a fama tem de fazer o dobro do trabalho". Palavras de Ricardo.

Garoto obstinado, sem dúvida.

Tudo isso porque ele tinha colocado na cabeça que iria fazer o que muita gente nunca chegaria a imaginar que pudesse mover tamanha massa humana em prol de um único objetivo: resgatar a garantia de uma tevê.

Um objetivo.

Não era dos melhores, nota-se. Mas ele era obstinado, jovem, parcialmente calvo (mas só no topo da cabeça) e além de tudo, seu carisma fazia dele um bom negociador. Obviamente, o coordenador do setor administrativo da empresa faria isso num instante. Acontece que Ricardo não era mais o coordenador do setor administrativo da empresa. Ele havia perdido o emprego, e justamente por ter falhado nessa tarefa. Ricardo estava puto da vida. Acompanhemos:

-Oi, em que posso ajudar?
-Hehe... Ehr, oi, eu vim aqui antes e--
-Neeeeeeidê!
-Ah, você me reconhec--
-NEIDEEEEE!
-Escuta, eu só preciso d--
-NEIDÊ!
-Se ela não estiver, não tem problema eu volt--
-Só um momento, por favor.
Uma voz vinda de longe chega estridente, o tom exato que faria uma bagunça numa vidraçaria. Os ouvidos de Ricardo explodem a cara nota alta alcançada pelo esguio e admiravelmente ruidoso ser humano que é Neide. E daqui, todas as escalas parecem altas, altíssimas, astronômicas. Ricardo fica surdo de um ouvido:
-FALA, MENINA!
-O CARA AQUELE TÁ AQUI DE NOVO!
-O JEAN?
-NÃO, O CARA D--
-O SEGURANÇA?
-NÃO, NADA A VER... É UM CLIENT--
-OLHA, SE FOR O SEGURANÇA, MANDA ELE ESPERAR LÁ FORA QUE O MEU MARIDO AINDA TÁ AQUI!
-NÃO, O CARA DA TEVÊ!
-QUEM É QUE VEIO ME VER?!? FALA LOGO!
-O-CARA-DA-TE-VÊ!
-COMO ASSIM, DE ALGUM PROGRAMA? O PORTIOLI DA SBT?
-NÃO É, NÃO TEM NADA A V-- CARAMBA, NEIDE, VEM AQUI!
-O QUE É? O que é? Não tá vendo que eu tava faze-- Ah, maravilha... É o cara da tevê. Por que não me avisou logo, Lorení?
-Com licença, eu preciso--
-Eu tentei te falar, eu tent--
-Quando?
-Como?
-Quando?
-Quando o quê?
-Desculpem, mas eu--
-Quando tu me avisasse, mulher?
-Agora, agorinha, mas tu não me ouviu.
-Agora?
-Agora há pouco.
-Sim, mas então eu não ouvi.
-Sim, eu percebi.
-Mas então a culpa não é minha, nem tem como.
-Não disse isso... Eu só falei que eu tentei te falar e tu não me ouviu.
-Não, eu ouvi, mas não entendi, é diferente.
-É a mesma coisa, é a mesma coisa... Além disso, por que tu mencionou o segurança? O bonitinho, aquele...
-Ei, escutem, eu precis--
-Que segurança? Tu é que não entendeu direito, eu falei que--
-Eu ouvi bem, tu perguntando dele, se tinha vindo falar contigo e tarãrãn... Menina, ele é casado, viu! e tu também.
-Calaboca, guria, não fala besteira... Olha só, me acusando, me caluniando, onde já se viu?... Mas escuta, o que tu queria, afinal de contas?
-Ah, é mesmo!... Ei, aonde ele vai? Moço! MOÇO! Foi embora...

Ricardo desistiu, sabia que este dia iria chegar. E foi então, que, percebendo a impossibilidade de levar o caso adiante, Ricardo pensou: "Tudo isso só por causa de uma tevê? Eu nem assisto à tevê!".

Enquanto a chuva fina molhava seus óculos, pensava: "Eu estou pensando comigo mesmo demais, vou parar enquanto ainda estou são". E não pensou mais nisso pelo resto do dia.

Na saída, desolado por encontrar-se diante de seu primeiro fracasso, parou na porta. Carregava uma tevê analógica, grande e pesada. Estava chuviscando, o carro estava longe, longe demais para se carregar um televisor sem se molhar um pouco. Ricardo puto é uma coisa feia de se ver. Se torna desatento e irritadiço, propenso a erros estúpidos.

A chuva ficou mais forte. enquanto carregava a tevê, o fio escapou da sua mão e ele pisou em cima. O aparelho foi ao chão com força o bastante para quebrar a tela. Sem pestanejar, esticou a perna para chutar a tevê longe, no pico da ira. Perdeu o equilíbrio e caiu de costas no meio da avenida. Ele começou a chorar de desgosto. A tevê olhava para ele come se risse de sua ineficiência em se livrar dela. Dava pra ver seus transístores cheios de emoção para agradar a família inteira, seus circuitos eletrônicos criados especialmente para domar as crianças, seu coração programado para lavagem cerebral e doutrinação do espectador... Ela estava ali, estrebuchando. Mas ria de Ricardo, um teimoso patético.

terça-feira, 13 de outubro de 2009 O Beco

Garoto entra à noite num beco escuro:

-Me dá a arma!
-'TAQUIOPARIU! EU TENHO ADVOGADO, NÃO ME BATE! Cacilda como é que eu fui me enfiar nesse maldito beco, sabia que ía dar em cana... Tô saindo, tô saindo...
-Ih, ó o maluco aí... Me dá uma arma rapaz, vim comprar um trabuco.
-Como assim, moleque?!
-Me dá logo a porcaria da arma!
-Você não deve ter mais do que uns 14 anos, do que está falando?
-Vim aqui comprar uma arma, tá aqui o dinheiro.
-Garoto, você está fora da sua mente? Como é que pode vir aqui num beco escuro à essa hora da noite e simplesmente pedir uma arma? Isso pode ser perigoso para um adolescente, sabia?
-Eu sei, ok? Além do mais, eu tenho dinheiro. Tá aqui. Toma.
-Garoto, você se drogou? Droga, você não tem nem idade pra viajar sozinho! Vá arranjar um outro jeito de se matar, estúpido.
-Olha aqui seu bostinha, você vai acabar chamando a atenção dos tiras, está me ouvindo?! Pensa que eu estou brincando?? Agora pega aqui a grana e larga logo o berro aqui na minha mão!
-Como é-- Coméquié?!? "Tiras"? "Grana"? "BERRO"?!? Você acha que isso aqui é o filme dos Bad Boys? Eu tenho cara de Will Smith por acaso? Você tá mais pra Um Maluco no Pedaço, sacou? "Trabuco"... Ai, ai...
-'Cê tá viajando, falou? Eu tô aqui com a grana toda aqui e o cara acha que é brincadeira.
-Cai fora, garoto...
-Olha, me escuta então. Vou te contar uma história.
-Vai o quê?! Contar uma-- Caramba, quer me fazer dormir, é? Minha mãe não mandou nenhuma babá por aqui. Quem sabe não esquenta um leitinho, então... E faz um mingau, pra trocar as minhas fraldas que eu acho que me borrei com o susto que você me deu, garoto...
-É sério. É sério, sem brincadeira.
-E eu tô aqui pra isso, por acaso?! Tá, fala logo, a noite tá calma, mas se aparecer alguém, tu sai correndo ou te enfio a mão nos córno.
-Então... Quando eu era pequeno--
-Era?! Hahaha!
-*pigarro*... Quando eu era menor, nós éramos pobres e vivíamos num barraco. Minha mãe chegava em casa do trampo e batia no meu pai, que tinha que fazer as tarefas de casa. Hoje dizem que eu não me adapto aos padrões comportamentais da sociedade por causa da falta de um modelo paternal masculino.
-Ah, é?
-Sim. Quer dizer, isso e o fato de eu beber o dia inteiro.
-... E sua mãe sabe disso?
-Talvez, mas ela também bebe pra esquecer...
-E o que você quer fazer com essa arma?
-Hmm... Acha que eu sou trouxa? Te entregar uma dica dessas?
-Ei, rapaz... O que você acha que eu sou? Você está com a arma, não é? Esse é meu ponto, já te vi me observando nos outros dias. Se der alguma coisa errada, você vem aqui e a gente se acerta, ok?
-Você me convenceu... Eu vou te contar. O pato é um velho ricáço... Dono de uma loja de jóias atende pelo nome de Sr. Lauro Rozo, conhece?. Não tem erro, saiu da loja sozinho pra ir depositar o dinheiro das vendas no banco. Deu umas voltas antes, mas daí é que eu vi que ele tava querendo despistar. Faz isso todo dia.
-Investigou até isso, é?
-É, vou até fazer um bem pra ele, hehe... Há boatos de que quer se aposentar, e uma coisa dessas deixa o cara zureta. Vai curtir os netinhos, gastar a aposentadoria em viagens e comprar uns azuizinhos pra botar a velha pra trabalhar... Todo mundo ganha!
-E a grana é boa? Quer dizer... Vale o investimento? Senão é 400 mortinho aqui na minha mão.
-Pelo que eu ouvi por aí, é na base de uns 5, 6 mil por dia. E estamos perto do dia dos namorados, não é? Sabe como são os ricos de pau pequeno... Tentam compensar com dinheiro. O negócio é que as vendas vão subir nesses dias.
-Esperto, esperto. Tô vendo que você é a cabeça da trupe, então, né? Podia usar isso pra alguma coisa grande e quem sabe fazer carreira, sabe?
-Sério?!? Você conhece alguém do alto escalão?
-Não exatamente. Um cara é ex-cunhado do amigo de um meio primo meu. Mas se der certo, te coloco em contato. Sonhe, rapaz... Até que seus sonhos se tornem realidade.
-E você é quem, o Papai-Noel? Isso é vida de crime, eu não quero ir pro show do AC/DC ou coisa do tipo...
-Tá bom. É que eu vou te dizer, você me lembra eu mesmo no início. Muita vontade, mas espera o momento certo. Você tem carteirinha de estudante aí? Vou te fazer um desconto.
-Ah, beleza... Escuta, tô indo. Minha mãe me mata se eu volto pra casa depois das onze.
-Foi o que a minha fez com as minhas irmãs mais novas. Eu não sei como ela conseguiu ouvir elas chegarem à uma da madruga, e olha que eu tenho sono leve.
-... Puts, que pena.
-Brincadeira!
-Ah! você me pegou nessa...
-É... Quem matou fui eu, elas chegaram em casa tarde e fazendo um barulhão do caralho. E eu tenho sono leve, sabe? Quer dizer, foi a terceira vez naquele mês... E eu tenho que trabalhar, não tenho?! Um homem tem limites, não acha?!?
-Ehr... Eu... Tchau!
-Hahaha... Vai logo, garoto... Some daqui...


-Ah, mais um "quero ser zé pequeno". Teu pato morreu semana passada, mané...

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(Hoje, dia 13, é aniversário do Boca. O rapaz fez 18. Já preparem uma cela acolchoada pro garoto... Feliz Aniversário, Boca!)

domingo, 6 de setembro de 2009 O real significado das palavras

Vai aqui uma lista das palavras, expressões e demais conjuntos de idéias que estão muito na moda, todo mundo usa, mas ninguém sabe realmente oque significa aquela “coisa maneira” que o seu amigo metido a besta fica falando.




Cult – expressão do inglês que quer dizer velho, demorado e entediante.
O que muita gente nem imagina é que a palavra, na língua chinesa, é um sinônimo de sanduíche de nata de leite de Iaque com mel. É por isso que ninguém na China aceita ser chamado de Cult.

Blasé – do francês quer dizer: eu adoro isso, mas não dou o meu braço a torcer porque me acho superior e quero demonstrar isso.
Há ainda aquelas pessoas que dizem que adoram o que é blasé, mas esses são os que, de fato, não curtem mesmo.

Proto – prefixo que do grego dá uma ideia de primeiro, recém.
Exemplo: - Ei garota, eu tenho um proto-bilau.
Não faço ideia da onde o Caio tirou essa.

Poser – expressão do inglês. Significa que alguma coisa ou pessoa se mostra em excesso sem um motivo aparente. Uma necessidade em aparecer, ou “posar”.
Outras apenas criam blogs e criticam o estilo dos outros.

Pseudo – prefixo grego para algo ínfimo, que não chega a ser algo concreto. Que tem a intenção de ser, mas não o é.
Exemplo: - Saca só essa banda, cara. Eles tocam um electro-new-rave-shit-rock! É do caralho!
Se quiser xingar alguém, diga-lhe que ele possui um Pseudo+(genitália).

Démodé - do francês: Fora de moda. Mas que daqui a uma semana todo mundo vai voltar a gostar.
Como os tênis Nike de cano longo, os discos de Vinil e o seriado "Um Maluco No Pedaço".

Hype - gíria inglesa da palavra hyperbole. Significa: Excessiva publicidade em torno de uma ideia, pessoa ou produto. Aquela coisa que passa uma vez na TV e fica martelando dias e dias na porra da sua cabeça.
A Tec Pix, filmes baseados em livros de romance adolescente, Sarney, Globo x Universal (a Igreja, não a produtora), o Twitter da Nair Bello e qualquer outra coisa que geralmente se usa para iniciar uma conversa com quem você não conhece.

Déjà vu - é uma expressão francesa. Usado em qualquer momento de pane do cerebral.
Na verdade, as pessoas que dizem isso só querem uma maneira mais branda de dizer: "Eu estive aqui semana passada, mas estava muito bêbado pra lembrar exatamente o que fiz."

Mainstream – palavra inglesa. Denota algo que está em foco nos dias atuais e é produto de consumo pelas grandes massas. Gente Indie não faz nada que seja Mainstream, isso às claras.
E outra coisa: Sílvio Santos É Mainstream. Não importa o que diga o Roque.

Vintage – vem do inglês. Significa algo que se encaixe nos padrões de comportamento da época da sua querida vovó, velho pra caralho (ex. anos 50) ou apenas que sua queridinha mamãe usou na sua juventude em meio a toda aquela erva da boa (anos 70).
Obs.: Nos 60’s eram só hippies, que usavam colares de contas e não deixaram nenhum traço marcante na nossa cultura, afinal das contas, tudo que eles faziam era fumar um e ficar “à vontade”.
Outra coisa: esta expressão já está Cult. Experimente chamar um "Underground" de "Vintage" e você será taxado "Démodézinho de merda".

Flamboyant - do francês, é uma espécie arbórea e também algo muito espalhafatoso. Significa "hey, olhe para mim mona! eu estou aqui benhê, ui!

Underground - O pessoalzinho de estilo mais tímido, mas nem por isso menos incisivo. O tipo que quando estavam na escola, eram rebeldes e achavam todo mundo idiota, e seu maior sonho era encontrar alguém que julgasse estar à altura das suas idéias, para juntos poderem discutir coisas como: "o fim de boas bandas que não se venderam", ou: "programas de tevê revolucionários que não vingaram". E, é claro, para que um concorde quando o outro disser: "Nossa, todo mundo aqui é idiota. Eles não sabem o que é música/filme/literatura de verdade". E depois se explicam e se justificam.
Ou aquelas bandas de nomes estranhos que insistem em não fazer sucesso por quererem tocar apenas para o público que acham que as entende. O negócio é que no final ninguém se entende e essas pessoas vão ser esquecidas, suas memórias varridas da história e as futuras gerações se perguntarão: "O vovô era o idiota ou as outras 6 bilhões e meio de pessoas que não concordavam com ele é que eram?"

Indie - O estilo musical moderno das pessoas que não se acostumaram com a fama. Ou que nunca vivenciaram ela. Aquele que faz você ter que chegar aos confins da internet, procurando por músicas de bandas das quais nenhum dos seus conhecidos jamais ouviu falar, por que eles insistem em não assinar nenhum contrato com gravadoras. São uma variação de músicos underground, só que mais alegres. Alguns vão me xingar por essa. Ou pelo menos aqueles que lêem o que se escreve por aqui. É, vocês dois.

Vegan – Do inglês significa: gente chata que não têm hábitos alimentares vegetarianos por suporem que os animais têm sentimentos e assim não devem ser devorados.
Nada a ver com o Vega, o vilão mais estiloso do Street Fighter.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009 Poema do Paulo

Saudosista, niilista, preguiça
Ateu, apogeu, filisteu
surpreso quando leu numa revista
que o mais tenso filósofo, sou eu

Se numa partida de taco
sobra-lhe graça e esquivez,
enxágua-lhe o sovaco
e o suor escorre pela alva tez

Desencorajado nos anos de infância
Um culto só, em meio à ignorância
A cidade de merda em que uma vez nasceu
Lá no litoral, onde mora algum primo seu

A revolução chegou de fato com a sua chegada
Pra começar, tapou os buraco da estrada
Usando uma escova e um balde d'água
Lavou muros e as paredes lá pichadas

Varreu a areia da praia,
contruiu algumas dunas
Mas fez isso num piscar;
Voltou a tempo de fazer as unhas

Leva a vida na labuta árdua
Mas não esquece de sorrir da dor;
Aquece o coração dos outros
Com o toque do seu desfibrilador

De grão em grão,
A galinha enche o papo
De verso em verso,
Essa estrofe enche o saco

Água mole em pedra dura,
tanto bate até que fura.
(Estes versos foram censurados. Mas dou-lhes uma dica:
use um trocadilho, porque estas rimas não são ricas)

Em meio aos seus miolos,
teias e morcegos, pequenos dejetos animais
Mostrando que por debaixo dos cabelos
Seu cérebro, já não usa mais

terça-feira, 4 de agosto de 2009 Qual é o problema da amnésia?

"Eu estava fazendo qualquer coisa, e então, seja lá qual foi o motivo, esqueci por que fazia aquilo. Aí pensei: eu nunca pensei nisso. Eu fazia isso sempre, mas só agora eu parei pra pensar se aquilo era realmente necessário para a minha vida.(...)"

-Certamente você já ouviu algum relato assim... Viu? esse é um dos problemas da amnésia, a pessoa perde a consciência até do por que executa uma tarefa mundana e--NÃO? Nada assim nunca? Mesmo, tem certeza? É que eu ia falar sobre... Ah, então deixa pra próxima, ok? Aham. Aham. A gente se fala, tchau. Abraço. Sim, sim. Tudo bem. Ok, vou desligar agora, tá bom? Tá, tá. Tchau.
Clic.
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Eu estava escovando qualquer dente e, de repente, seja lá qual foi o motivo, pensei na seguinte cena:
-Por favor, poderia me ajudar aqui? Obrigado. (Um escultor, artista plástico, algo assim.)
-Sim, senhor, disponha. (Alguém com aparência de velho, com a barba branca, um chapéu-côco e óculos de lentes redondas.)
-Está ficando bonito, hã? (Limpando o suor da testa.)
-É, é mesmo... Quando ficar pronto então... Fiu! Mas... Por que mesmo você está construindo esta estátua? (esgueirando-se atrás do artista plástico. Com uma chave-inglesa em riste , na sala de estar, o Cel. Mostarda.)
-É que--Páw!... (depois de um tempo, levanta com dificuldade.)
-(roubando a carteira do artista. Acha apenas uns trocados.) Seu maluco! Todos vocês! Malucos!(e sai correndo)

O que acontece a seguir é que o artista perde a memória. Vendo-se sujo de argila e a peça na sua frente, ele assimila que estava esculpindo-a. Algum tempo depois, alguém muito rico a compra. Quando um grupo de repórteres chega em sua casa e vêem aquela bela obra retorcida, o perguntam o que a aquilo significa. Ele diz que é "a situação abstrata da psique humana em confusão absoluta". O repórter pergunta se quem o fez estava só bêbado e tinha esquecido completamente por que tinha esculpido aquilo. O ricaço pára pra pensar e diz: "Porra! Então é isso!" Aí eles voltam de carro até o local onde o escultor estava e, de fato ele ainda estava lá. O Ricaço pega e atira a escultura na cabeça do homem, que desfalece por alguns instantes.

-Quem sou eu? (ainda no chão, para um adolescente de 17 anos que não parece ser de confiança)
-Você? Hum...(com um sorriso sacana no rosto) Seu nome é José de Arimatéia. Você é corno, o filho da sua mulher não é seu.
-Ah! Droga! Maldita!
-Ah, e mais uma coisa!
-O que é?
-Você é dançarino de strip tease, e trabalha naquela boate no final da rua. Você também--
-O quê?!?
-Quer a informação ou não? Caramba!
-(quase chorando, decepcionado, sentindo como tivesse recém reencarnado e tinha esperanças de voltar como algum nobre ricaço.) Droga! Tudo bem, abra o bico, rapaz!
-Hmm... Você também faz programas quando não está lá. Eu sei disso porque me disseram. E você não conhece minha mãe.
-EU FAÇO O QUÊ?! Caramba, o que eu-- Como é que-- Por que eu nunca... Droga, acho melhor parar de resmungar e voltar para o trabalho, então. Até mais garoto. Desculpe pelo seu tempo. (se vira e começa a andar na direção de uma casa noturna.)
-Foi um prazer ajudá-lo, panaca...(caminhando para o outro lado)
-Como é que é?
-Nada nada, só disse que pra não se perder, você deveria seguir aquela placa...(E sai, definitivamente)
-Hmm. Algo não me cheira bem aqui. Mas que posso fazer? Sou apenas mais uma vítima do estrangulamento dos menos-capacitados para posições administrativas em detrimento do desenvolvimento econômico da sociedade moderna, sou um fruto da luta de classes que marginaliza pessoas e discrimina-as por suas ocupações. Putzalavida... Tomara que na próxima encarnação eu não nasça socialista. Aí estaria no fundo do poço de vez.

Aproveitadores fanfarrões.
Esse é outro problema da amnésia

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segunda-feira, 6 de julho de 2009 Pânico no Condomínio - Dia 2

Cedo demais. Ou, tarde. Qualquer uma, se for julgar sua chegada às 5 da manhã. Ou da noite. Está escuro, caramba! E você não está em condições de julgar nada pelo que vê: aquele canhão brabo que você pegou ("atacou" seria o termo mais cabível, dadas as circunstâncias...) parecia, aos seus olhos, a coisinha mais "graziossa".

A última coisa que você esperaria de um fim-de-uma-festa sublime é algum desafeto seu encontrá-lo naquele estado, que mais condizia com o de um alce que acabou de ser atropelado por um caminhão-pipa carregado com milhares de litros de caipirinha de morango com vodka e doses de tequila com limão e sal, enquanto tentava copular com um monstro-lhama de orelhas de elefante e tetas de uma leiteira campeã. Mas, bem... A vida tem disso. Você olha pra porta dele e nesse mesmo momento, percebe que algo está errado. Então, com toda sua plena desenvoltura balangandã, você corre pro jardimzinho e vomita aquela "erradez". Você se sente um tantinho assim de culpa pela imprudência para com a sua vizinha, embora ela nunca vai saber porque as petúnias daquele lugar nascem tão feias. Você, sente-se melhor. Mas é por pouco tempo.

Lá está ele, aquele desprezível. As mãos na cintura, os cotovelos arqueados, o cigarro mordido no canto da boca boca, o pijama de cachorrinhos... Aquela visão do desejo por autoridade, de ser o exemplo de intelectual conservador que só quer o bem de todos, mas sem fazer muitos sacrifícios; que se importa com os bons costumes, de moral rígida e intransigente. Humpf. E além de ter um bafão, né? Que o cigarro não ajuda...

Em matéria de mal-estar, sua pose de superioridade rivaliza apenas com a ânsia de vômito que dá depois de se por de pé, quando se bebe sentado. E, por falar nisso, aí está ela:

-Blééargh! Ah, e esse pastel tava tão bom...
(Você lembra da voz lilás, aguda e irritante, com aquela aspereza de quem traga alguns maços por semana) (sem falar na pretensão de ser sarcástico que é característica de todas as pessoas que aprenderam tudo o que saber sobre humor com a mamãe.) (E quando ele vira os olhos para o lado? Como se dissesse: "Descobrir que o pacote de pipocas que eu estava comendo tinha uma barata dentro seria deveras mais prazeroso do que conversar com vocês, analfabetos funcionais leitores de lixo literário. Desliguem a internet! Proíbam os malditos blogs! Leiam logo um livro de verdade, seu bando de desavergonhados liberais!.") (Aí, então, depois de um pigarro daqueles "ai ui, como sou superior", ele abre a boca:) Hmm... Muito bem, senhor Regurgitador. Acho que as próximas petúnias da senhora Ofélia irão crescer grotescamente feias!
-Ah, vá plantar batata!... hahahahehe... (suspiro) Batatas, aiai droga... Blééargh!
Depois dessa gorfada, você se sente melhor, como se junto com o recheio do pastelinho tivesse ido junto alguma parte do álcool
-Então... Voltando de uma festa bêbado, é? Francamente! Não condiz com a imagem de um presidente da associação do condomínio.
-Presidente de quê?
-Da associação. Ah, você não veio na reunião de sábado à noite.
-Mas eu pensei que se faltasse bastante, iriam me esquecer completamente...
-Está louco? Com toda essa sua mania de bebedeira e chamar amigos e amigas que se comunicam aos berreiros? Tentamos ignoram às vezes, mas se bem que alguma hora dessas... Veja bem, vamos ter que levar você pra assinar uma ata e te entregar... Um aviso! E pela caixa de correio...
-Um aviso? Nossa, puxa vida, hein? Vocês não estão pra brincadeiras mesmo...
Ah, você é tão sagaz!
-Hmpf... Alguns de nós até detestariam lançar mão de um recurso tão extremo, ainda mais contra qualquer um que mantenha as taxas do condomínio em dia e que inclusive contribui para o Natal das Crianças -Por falar nisso, o pai do garoto do 28 mandou dizer que o menino quebrou a cafeteira andando com o skate que você doou; o que, segundo as regras, faz a culpa ser sua. Ele quer falar com você à tarde.- Mas é sério, não estou aqui pra ser o "carrasco", ou o "dedo-duro" ou "x-9", sei lá o que essa nova geração anda falando...
-...
-Vai vomitar de novo, não é?
-Não, nada disso... É que eu meio que... Quer dizer, acho que... Eu parei de ouvir na parte do Natal das Crianças... Você mudou de assunto, e não me falou nada. Depois, voltou atrás, do nada, e queria que eu... Eu... Droga, eu me perdi de novo.
-... Bom, eu havia dito que o pai do garoto do vinte e oi--
-mmMMm... Blééargh!
-Jesus Cristo!
-Amém!
-Quase nas alpargatas, rapaz! Por um triz... Eu paguei caro por elas.
-Hmm... Diz aí, semana passada me disseram que eu era presidente da associação, mas até agora, não recebi nada, nem desonto na taxa do--
-Eu acabei de te dizer isso.
-O quê?
-Foi agora, eu acabei de te dizer isso.
-Não, o que foi que tu me falou agora?
-... Você ser presidente da associação. E, na verdade, ninguém queria mesmo você. Só que o único candidato era bem pior e, como nenhum de nós queria a vaga, o antigo presidente te candidatou, nós só votamos em você por falta de opção. Quer dizer, ninguém duvida das suas capacidades de se sair bem, mas... Convenhamos, não é?
-Eu... Eu não entendi metade do que o senhor falou. E não precisa tentar me explicar. Mas quem era o outro candidato?
-O outro?
Ele faz uma pausa. Força os maxilares, mostrando os dentes como se uma dor lancinante aparecesse do nada enquanto ele pensa num adjetivo para descrever o outro candidato. Você não tem idéia do que irá sair da sua boca. Para sua surpresa, ele não fala nada. Mas, depois de uma longa inspiração:
-O... Rapaz, do 34.
-...
-Você vai vomitar de novo agora, não vai?
-...
-...
-... Na verdade, eu... Eu acho que me perdi. Eu juro que me lembro de ter saído de casa à noite, mas... Depois disso, é tudo um branco... E a dor! Ah, a dor... Que cheiro é esse? Como eu vim parar aqui? Quer saber? Eu acho que fui abduzido. Rápido! Me ajude a levantar, que eu quero chamar as autoridades responsáveis. Vamos! Ei! Aonde você vai? Volte aqui, eu não consigo ficar de pé... Eu acho que vou--Blééargh!

-Ah, peraí... Acho que to lembrando agora...



Fim do dia 2

sexta-feira, 26 de junho de 2009 Michael Jackson morreu. E agora, mortais?

PAULO H.

E então? Acha que esse fato não vai mudar nada na sua vida? Pense de novo, pequeno gafanhoto. Michael Jackson já era. Babaus. Zé fini.

Se ainda estivéssemos nos '80, ou talvez até nos '90, muita gente sentiria uma palpitação irregular só de ler essa frase. Caos na vida social. Aqueles que tinham um LP ou mais, estariam na frente da TV há mais de meia-hora, observando a figura do Bonner, checando se os lábios dele sincronizam com o áudio. As palavras "morto", "Michael" e "Jackson" não teriam sentido na mesma oração, à menos que se tratasse de uma negação. Caos na rede telefônica. A Internet, se estivesse lá, teria ido tomar um cafezinho enquanto a poeira não se assentasse.E quem sabe não estariam no site da multinacional acompanhando minuto à minuto a necrópsia do corpo "... Agora o rim foi tirado e encontraram uma secreção branc-- Hey George, já disse para não comer Xís aqui dent-- piiiii". E ainda existiriam aquelas quatrocentas e vinte e duas mil e duzentas e quatorze fãs #1 que estariam desmaidas, ou desidratadas, ou atônitas, ou... Caos na rede hospitalar.

CAIO

O Rei do Pop esticou as canelas, mas e agora? O Maicou era um alienigena (vide MIB), um cara incrível. Que nem ele só talvez o Elvis e o FabFour, mas uma coisa é certa: você tem uma banda que faz sucesso, que as groupies se matam para pegar aquela sua cueca carimbada, então é bem provável que você morra - sim, como todos nózes - mas uma coisa você com certeza fez: teve uma banda de sucesso. Uau que bonito, não?

Todos amávamos o pequeno Maicou, isso é inegável. E vamos continuar amando, mesmo assim, mesmo que ele gostasse de brincar de médico com garotinhos, morasse num parque de diversões ou usasse aquela luvinha branca nojenta que a Ana Maria Braga usava.

Pelo menos ele não morreu no próprio vômito, né? Afinal quem morre proprio vômito hoje em dia? Ninguem ora bolas. Ninguém!


Coloque aqui o seu nariz


*PS.: Agora, no finalzinho... Pense comigo: Você faz um teste na frente de alguém que pode mudar a sua vida, aparece na TV, ganha fama mundial, vira sex symbol, acumula alguns milhões e prepara-se para a aposentadoria. Aí, de repente, morre. Você imagina que ganhará a primeira página nos jornais e a TV fará programas especiais de última hora e sua imagem estará em cada blog, sites de agências de notícias e milhares de pessoas irão fazer uma marcha até o local do funeral, acompanhando os seus restos mortais. Aí, vem um filhodeumap**a, imbecil, deformado e efeminado muito mais famoso/rico do que você e rouba o mundo. Farrah Fawcett, nós lembramos de você.

sábado, 13 de junho de 2009 Encontro - Parte 2

"-Pode tentar... Escuta, rapaz, é o seguinte: Você está morto."


-O quê?
-É isso aí.
-Mas assim, de repente?
-É... Olha, ninguém pode prever algo assim--
-Mas eu era tenh-- tinha tanta coisa pra fazer, droga...
-Foi o que eu pensei também, rapaz.
-Então o senhor está m-- Quer dizer, você... Você...
-É... Faz umas 3, 4 horas. No meu quarto, ataque do coração.
-Hmm...
-Mas não havia dor, sabe? Só... Frio. E silêncio, muito silêncio. Achei que tinha ficado surdo, ou algo ass--
-Desculpe, mas o senhor não precisa... Sei lá, cumprir uma agenda... Hmm... "Matar tantos homens, mulheres, crianças" até o jantar com Deus?
-Do que está falando, rapaz?

-Escuta, Sr. Nicholson... Você é o anjo da morte ou algo assim?
-Não, não... Que é isso, rapaz! Eu só... Bem, eu realmente não sei porque estou aqui
.
-Deus me quer morto?
-Escuta: Pára com esse negócio. Eu estar aqui deve ser uma daquelas lições que esses malditos querem que aprendamos: "Somos todos humanos, vivemos até onde der."
-Então, é por isso que um ator de Hollywood vem até a minha casa? Pra me ensinar uma porra de lição?! Por que não me mandam o Tom Hanks? O Danny Devito? Por que não a secretária do meu chefe? Eu poderia estar transando enquanto encontro o fim do túnel branco... Mas tenho que ficar aqui conversando com um babaca que não sabe o quê, mas quer me dizer algo!
-Na minha vez foi mais fácil. Olha aqui, rapaz... Não adianta gritar comigo, com Deus, diabo, Krishna ou seja lá qual for esse sacana. Talvez seja cruel, mas agora já foi. Não dá pra pedir pra voltar...
-Você podia ser meu tetravô! Fala assim porque teve uma vida longa e boa! Eu tenho 23 anos! Eu morri sem sair do meu país! Eu não apareci na TV! Não morei com uma garota! Eu passei uma ano estudando 6 horas por dia pra um careca velho e translúcido sentado no meu vaso dizer que nada do que eu fiz valeu à pena!
-...
-Está aí a sua maldita lição!: "Estamos todos na merda e vamos todos pra merda". Todos. Não importa a cor, o sexo, ou se o seu plano médico é mais caro que o meu!
O velho olha pra você como quem diz: "É isso aí." De fato, é o que ele diz em seguida.

-É isso aí.
-É tudo o que tem pra me dizer?
-É. Na verdade, assim que meu vizinho disse isso, eu pisquei e... Bem, apareci aqui.
-Seu vizinho?
-É, ele morreu.
-Vocês... Conversaram também?
-Muito. -E... Sobre o quê? -Carros, mulheres, bebidas... Ele tinha quase a minha idade, sabe? Nós quase sempre concordávamos em tudo. -Não falaram nada de morte... Religião... O sentido disso tudo? Quero dizer... A vida? -Rapaz, não seja bobo. Eu tentei, mas vim pra cá do mesmo jeito que ele foi até a minha casa: curioso. Quando ele saiu, eu não sabia muito mais do que sabia antes. Apenas algumas coisas sobre Vermute e Gim. Sabia que existe um Dry Martini com cebolinha?
-Escuta. Se nada disso serviu pra nada, quer dizer... Eu vou depois passar algum tempo com um completo estranho pra desaparecer pra sempre? E só?
-Provavelmente, não. Ou eu estaria desperdiçando meu tempo com você. É nesse tipo de momento que você torce para que os muçulmanos estejam certos. 40 virgens...
-É... Mas como é que elas pararam lá? Eles as matam aqui ou sei lá... Tem uma maquininha de fazer virgens?
-... Rapaz, eu é que não vou discutir religião numa hora dessas!
(...)

-Sabe, eu pensei que seria mais difícil.
-Como?
-Aceitar tudo isso... Foi tão rápido, me sinto estranho assim. Parece que eu percebi que levei um microondas estragado e ainda assim continuo pagando as prestações...
-Rapaz... Achei que não iria ser diferente. Mas... Sempre é. Eu tentei subornar o meu, tentei ameaçar minha fé, tentei muitas coisas. Nós estamos aqui há 2 ou três horas. Imagine alguém que acabou de mudar de vida, que passou a vida inteira trabalhando e finalmente ganharia sua recompensa, mas morreu. Imagine alguém que achou um sentido, que achou uma outra pessoa que o completasse, que reencontrou algo que jura que faria sua vida valer à pena, alguém que acabou de começar sua vida. Éramos dois ferrados, tínhamos pouca expectativa. Há aqueles que ficam um dia inteiro conversando com seu fantasma, mensageiro, com o anjo da morte. Mas isso é tudo sem valor. De quê adianta dividir algo que não irá fazer diferença? Experiência não conta quando se está morto. No fim, só resta desaparecer pra sempre. De quê adianta, então?! Bom... Eu não te digo, rapaz. Primeiro, porque é aí que está o mistério da coisa. Segundo, porque você vai ter a sua chance de descobrir, agora...
-Como assim?!? E se eu nã--
-Acalme-se. Nada disso vai adiantar na sua vez. Você terá tanto tempo quanto precisar. E, além do mais, mesmo sendo um jogo sempre diferente, o final é sempre igual: Nós voltamos pra casa e conversamos à respeito.


Assim que terminou a frase, os dois se olham no fundo das suas almas sem-esperança. Se abraçam, sem poder sentir. O tempo se move, e quando os olhos se abrem, você está em pé, na superfície da água. Há uma ponte sobre a sua cabeça e você entende tudo no exato momento. A alma de um suicida se materializa à sua frente. Seu corpo treme, cambaleante e os olhos se viram para cima. A alucinação do último suspiro. Foi como você sentiu. Ele abre os olhos, e depois a boca. Vocês conversam. "Vai ser diferente", você pensa. "Sempre é.". Primeiro, as perguntas dele. A decepção, ao perceber que você não trouxe as respostas, o deixa confuso, agressivo. A sua explicação faz com que ele aceite, como você o fez. Todos sempre aceitam.

"Nota mental: lembrar de esquecer da janela do quarto, do livro, do barulho da rua, dos gatos, ..."

Ao longo das horas, você percebe o sentido. Você entende. Você guarda a lógica para si, apenas pra que ele tenha que descobrí-la por si próprio.

terça-feira, 2 de junho de 2009 Encontro - Parte 1

Madrugada de Sábado, quatro e quatorze. Insônia.

"Será que eu bebi tanto assim?"... É a sexta vez que vai ao banheiro. Não deve ter lido mais do que dez páginas desde a última vez que se levantou. Sábado, e chance nenhuma de alguma coisa melhor pra fazer quando a manhã chegar. Pega o marcador e analisa com orgulho o que as mãos seguram... Faz um mês e meio que não abria aquele maldito livro e agora faltavam no máximo umas 30, 40 páginas pra terminar.

"Nota mental: Arrumar a janela do quarto". Encarando as gotículas de água condensada do vidro, você não encontra coragem para tocá-lo e fechá-lo. Usando cuecas, meias e uma regata que não lembra da última vez que lavou, você tem uma sensação do que uma foca pelada em seu habitat natural sentiria. As extremidades congeladas dos dedos das mãos e dos pés doem como se alguém perfurássem-nas com agulhas, muitas agulhas.

"O vento não incomoda muito quando se está debaixo de dois cobertores e um edredom. E além disso, o som do silêncio das noites ajuda a dormir". Sobre o asfalto, um vulto iluminado, o Fiesta do Augusto, rápido, muito rápido. Reconhece pela vibração que o sistema de som (que você nem pensaria em pensar em comprar) que faz a casa toda chacoalhar. Silêncio. Os dois gatos de sempre, que simplesmente decidiram não miar essa noite. Um grupo de adolescentes que saiu pra beber e estão voltando mais cedo hoje. Nem um pio.

"O universo conspira pra que você consiga terminar o livro ainda hoje e, depois, hibernação". Mais silêncio.

Abre a porta do banheiro.

"Hm. Estranho". Se não bastasse a total ausência dos sons que vêm do exterior, você não sente mais tanto frio. E agora, o clima agradável, até mesmo aprazível. É como se uma nuvem de mormaço tivesse, de repente, invadido cada fresta da sua casa. Você inspira uma tremenda massa dessa brisa, e é como se a sua cabeça tivesse os tecidos separados com uma pinça, colocados em uma lavadora de roupas junto com centenas de fotos suas e a centrífuga fizesse com que todas elas passassem diante de seus olhos, cronologicamente. Então as fotos enxarcadas, descoloridas e borradas, vão pra uma panela e a sopa é despejada no seu crânio. Os órgãos, músculos e demais tecidos são retirados do varal e realocados em seus devidos lugares, seus nervos sensoriais por último, para que sinta de todas as maneiras possíveis o que acabou de acontecer nestes dois segundos.

Ainda em choque, a visão se dissipa lentamente, até que você se encontra de novo. Deitado sobre o tapetinho do banheiro, tudo é um frio cortante. Levantar se torna uma tarefa, um fardo.

-Ei, rapaz! Anda logo... tô com um pouco de pressa, sabe?


-Eu... Quem -- JACK NICHOLSON?!?.. O que--
-É, mas quem você esperava, o Jackson 5 cantando no teu chuveiro?
-Como assi--
-Hehehe... Não precisa responder, estou só brincando.
-Calma, eu só preciso de um tempo pra... O que está fazendo aqui?
-He. Hehehe. Já entendi. Eles nunca iriam se acostumar com isso. É por isso.
-Isso o quê, caramba?!
-Esse negócio de mensageiros e--
-Como assim?
-Olha, vou encurtar a história pra ti garoto...
-... Olha, você está na minha casa e entrou não sei de quê jeito. Até onde eu pude deduzir, alguém me deu alguma droga pesada e me derrubou. Talvez, você. Não sei. Sr Nicholson, com sua licença, mas eu vou chamar a polícia.
-Espera! Calma aí, eu... É que... (Tenta uma inspiração profunda, mas parece que não consegue colocar o ar pulmões à dentro) Hehe, esqueci disso.
-Fala logo! Essa minha noite foi estúpida demais.- "A arma está na gaveta de cuecas", pensa-
-Pode tentar... Escuta, rapaz, é o seguinte: Você está morto.


"-O quê?"
Fim da Parte 1

quarta-feira, 20 de maio de 2009 O Tempo

Imutável, indelével, indiferente e doce tempo. O tempo é um déspota barbudo sem escrúpulos e com transtorno obsessivo-compulsivo. "Tudo em seu devido lugar e, no final, tudo se ajeita" ele diz, enquanto observa o mundo sendo consumido pelas chamas, com direito a visão panorâmica e um saco de pipocas amanteigadas.

Talvez o fato mais belo em relação ao Tempo é que ele existe. Eu sei, eu sei, e como consequência, nós existimos. Os irmãos siameses Contínuo Espaço-Tempo já pediram desculpa por essa cagada, mas pensem no lado positivo: pensem na Scarlett Johansson. (as garotas podem pensar em mim, por outro lado). (Se quiserem, claro).

A questão é: por mais que , o Tempo não vai nos dar uma chance. Não podemos voltar atrás pra jogar a velhinha do trem, apertar fast-forward nas ressacas homéricas ou usar o quadro-a-quadro nas tardes românticas na Prainha. E, pra piorar, a civilização deu a luz à Responsabilidade, que ao mesmo tempo em que organiza e estrutura o castelo de cartas da nossa sociedade, nos espreme entre intervalos de almoço e horas-extra. O tempo que nos satisfaz é o tempo livre, mas a menos que seja um mendigo ou o Tarzan
, obviamente, você não dispõe dele com tanta frequência quanto gostaria.

Se fosse gente, seria confundido com um garotinho autista auto-suficiente: "Rá! Aquele garotinho autista auto-suficiente? Ele não pode brincar com a gente agora... Está ocupado demais causando toda a existência".

Mas pensar que o tempo é um vilão apenas porque não está nem aí para o que você faz com ele é besteira. Na verdade, o tempo é como um vizinho chato: é mais sensato ignorá-lo quando este implica com o volume da guitarra do que xingá-lo sabendo que vai perder a cabeça por alguém que não pode te escutar simplesmente porque grita mais alto. A sabedoria está em acompanhá-lo e compreender que escolhas são feitas no "agora"; e o "depois", tanto quanto foi o "antes" são apenas consequências disso.

Culpem o mordomo, xinguem a mãe, blasfeme pra Deus, reclame da política externa do governo, atire no xerife, chute o computador, quebrem o pacto de Genebra, DESLIGUE A TV, mas deixem o coitado do Tempo em paz.

Se corrermos, tropeçamos e caímos de cara no chão de um jeito que apenas as mais armadas videocassetadas poderiam mostar. Se esperarmos para que alguma coisa aconteça, acabamos sozinhos, sentados na frente da TV, expostos ao Gugu, ao BALÂÂÂNÇAA!!1!, à Tecpix-preço-de-um-cafezinho e quaisquer outras mazelas que a caxinha do demônho propagar. Mas que o ser humano vai aprender, ah... Ele vai. Afinal, temos t-o-d-o o Tempo do mundo pra isso.

sexta-feira, 24 de abril de 2009 The M! True Roliúde Story: Eduardo Jaeger: "Um verdadeiro Abacaxi".

Eduardo, ou Wardo, como é conhecido nos famosos concursos de Miss Drag Queen de Carnaval, nasceu numa choupana de palha ao pé do Himalaia. O dia -esqueci de dizer, era de dia- era cinzento e dava a impressão de que iria chover no dia seguinte. Isso é tudo por aquele dia.

Na infância, demonstrava aptidões esportivas em competições e procurava aumentar seu rendimento físico de modo que o ápice do seu desenvolvimento muscular se desse pelos 13, 14 anos. Infelizmente a vizinhança achou que aquilo tudo era "coisa do demonho" e mandou o guri prum internato. FIM DA HISTÓRIA.

-Mas e--
-FIM DA HISTÓRIA.
-...
-Hunf.
-Ei! Não é a sua namorada correndo só de biquiní no meio da biblioteca da cidade?
-Hã? BENZINH-- Cara, aquela não é a minha namo-- *Soc* *Pow* *Splash* *Bark* *Spiff* *Beer Can Being Opened*

Na adolescência, fugiu do claustro para viver nas ruas de uma metrópole no sul de um país emergente. A experiência propiciou uma série de acontecimentos bizarros demais para a TV e demasiado patéticos para as mais miseráveis rádios piratas. Um de seus mais marcantes fatos dessa época foi, aos 12, drogada, prostituída e com sérios problemas quanto à infiltração dos pêlos da bunda reto acima.

Durante o período em que fazia pós-graduação na escola das ruas, viu sua vida florescer. Passava agora pela puberdade. Partes do seu corpo começavam a mudar: a voz engrossara, odores estranhos emanavam de seus poros e logo passou a se interessar por outros meninos. Digo, MENINAS, outras meninas... Foi nessa fase que acabou por encontrar seu grande amor: um banjo. Eu falei, é patético. Além do cheiro de fossa séptica aberta, faltavam-lhe duas cordas. Mas, cego de paixão, fazia amor com o instrumento todas as noites.

Aos 15, largou sua vida de indigente e jogou tudo fora: uma caixa de papelão(ou casa, chame do que quiser); uma caneta do Mickey(com orelhinhas); isqueiro; cachaça; boneca Maria Mijadera que vem com troninho e faz xixi de verdade!(da cotiplás, sempre um rostinho etc, etc...); fio dental (o de dentes) e um guarda-chuva, que chamava de Larry (e usava como figura paterna, batendo-o em si mesmo quando sua consciência pesava). Mais tarde, começou a chover e teve que voltar pra pegá-lo de volta.

Já quase adulto, instalou-se em uma cidadezinha no litoral, onde encontrou seu primo cosmopolita e metrossexual que há muito havia se perdido com o caseiro da fazenda no meio do mato e... Digamos que hoje ele ama os Pet Shop Boys.

Com a vida estabilizada, família, amigos, freiras, bebedouros, uma banda, Um carráço particular pra levar-trazer da escola, peladas na praia,
festinhas de 15, mulé a dá cum pau, surf e macon-- ehr... Decidiu que era chegada a hora de mudar de vida. De novo. Mas com apenas alguns pilas no bolso e sem planos para o futuro, Eduardo esperou até que a vida lhe desse oportunidade. E então, depois de duas semanas, levantou-se e olhou para o horizonte. Lá estava eu. Então, fazendo algum esforço pra não parecer decepcionado ele me pediu pra sair da frente pra poder enxergar melhor. Justificável, tinha uma guria muito gost--

-Não é o mesmo.
-Desculpe, como foi?
-Acho que não estamos falando do mesmo Eduardo.
-Hmm... Eduardo "Chifres-de-Ouro" Jaeger, vice-campeão de Barretos?
-Não.
-Dudu "Dois-dedos" Jaeger, fabricante de facas artesanais?
-Não.
-Ed "swing-suor-e-odor" Jaeger, que ganhou o concurso de karaokê?
-Hmmmm... Talvez, mas provavelmente não.
-Edinho "come-letras" J., escrivão?
-Não.
-Então só pode ser ele, não tem outro.
-Ah, tudo bem. Mas como ele morreu, mesmo?
-Psst! Vem aqui mais perto...(cochichando) Não morreu, mudou de identidade, mudou a cara com plásticas...
Dizem que mudou de país, inclusive. De sexo? Talvez, por que não?
-Sério?! E quem ele é agora?
-Ninguém sabe... Desde que o dono da fazenda botou sua cabeça à prêmio quando pegou ele tratando a égua favorita com "carinho demais", ninguém nunca mais viu ele por essas bandas.
-Bom, se faz tanto tempo, ele já deve ter apagado os dados da sua vida aqui e estar levando uma vida normal!

-Eu duvido. Não é uma mudança de cenário que faria um cara como ele levar uma vida normal.

quarta-feira, 11 de março de 2009 Eu me vejo numa roda de pessoas falando baixo, planejando alguma coisa. De repente, alguém fala:

-Vai começar assim: uma banda vai tocar no palquinho até umas cinco e meia, seis horas; aí a gente se junta com o pessoal do greenpeace que vai estar esperando na saída do prédio. Quando os deputados saírem, nosso representante vai subir no palanque e fazer o discurso, nada muito extenso, é pra o povo se empolgar... Algumas estatísticas e palavras de ordem, o básico. Depois a gente--
-Que banda?
-Como?
-Que banda vai se apresentar?
-Os Stones, mas eles não vão "se apresentar", só --
-TámalucoosStones? OS ROLLING STONES DINOSSAUROS DEUSES DO ROCK na minha cidade?! Caramba...
-Não, os Happy Green Nature Stones aqui do bairro de baixo. Eles fazem um tipo de axé engajado. Sabe que o pessoal confunde bastante?
-Hm, nteressan e depois?
-Bom, depois vem o de praxe: os protestos em coro, a passeata, vamos abraçar uma árvore velha, gritar um hino broxa, a fogueira simbólic--
-A o quê?
-Fogueira simbólica eu disse.
-Como assim fogueira? Isso aqui não é um movimento em prol da natureza? De consciência ambiental? Da maldita sustentabilidade?!
-É... Mas é simbólica...
-Como assim? Vocês vão usar algo do tipo cartazes, fantasias e material reciclado pra encenar as queimadas?
-De certo modo.
-Gostei, tipo... Uma performance artística!
-Tipo churrasquinho. Vamo metê-le fogo.
-O QUÊ?! Não tá vendo que alguma coisa não tá certa?
-Jesus! Você é o que? A presidente do grupo de mães? o chefe dos bombeiros? É só uma manifestação, droga! Agora só falta reclamar dos Molotov!
-Molotov? Eu não tenho nada cont-- espera! Molotov como em "coquetel Molotov"? Eu pensei que fosse um movimento pacífico!! No que eu fui me meter, cacilda?!?
-Ah, pára... Os Molotov são só precaução!
-E precaução desse tipo pra que?
-Ah, em caso de retaliação da polícia. E pra ajudar na fuga.
-Mas onde... quando... em que planeta... que porra... Que retaliação? Que fuga??
-Olha, você não recebeu o memorando? Depois que a gente eliminar os políticos, não ache que vai ser melzinho na chupeta e abracinho pra cá, abracinho pra lá. Só te digo uma coisa, eles vão atrás dos líderes e você é o responsável pelo grupo 6, então é melhor pegar folêgo.
-Acho que vou vomitar.
-É melhor não. Se os papelotes da branquinha forem junto, o pessoal do CV vai se chatear.
-Que papelotes? Eu não lembro de ter...?!? Ah, quer saber? Que se dane, também! Eu vou é pra minha casa! Isso aqui tá muito errado! O organizador dessa jossa tomou uma balinha antes de planejar isso?!
-Ei, Madre Teresa! Então me diga uma coisa: Como é que você que vamos pagar os homens-bomba sem esse patrocínio?! E, mesmo que pudéssemos, você não acha mesmo que cagamos automáticas ou pegamos balas em uma padaria, hein? Alguém tem que pagar a propina toda! Políticos não se subornam sozinhos, viu! Volte aqui, sacana!

Olhando o noticiário, me sobe um pensamento de que eu perdi uma ótima oportunidade. Por algum estranho motivo, a idéia de ser preso e processado por planejar homicídio, patrocinar o tráfico, liderar uma manifestação armada de um tipo de guerrilha do cuscuz, apodrecer numa cela e ser abusado com um cabo de vassoura até escancarar o meu terceiro olho místico por um grupo de marginais de quinta me parece uma experiência realizadora e que abriria minha mente para muitos pontos de vista. Ganharia uma pensão do governo pelo resto da minha vida por causa da retaliação hedionda sofrida e viveria como um Eco-guru no meia da alemanha oriental, dando palestras para neo-punks verdes. Mas aí percebo que doze segundos da minha vida se vão nesse devaneio estúpido e volto a dormir esperando pela próxima bebedeira. Que noite maluca. Que ressaca infernal.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008 Sobre coisas que odeio (uma versão light)

  • Domingo:
O primeiro da lista, que na verdade não tem ordem, mas esse merece lugar de destaque. Lembrança de que é o fim do fim-de-semana, falta do que fazer, sensação de desperdiçar a última chance de aproveitar a folga, nostalgia, Faustão, Gugu e Raul Gil, filme de suspense adolescente, arrumar a casa pra começar outra semana... Tudo isso num só dia. Kurt Cobain que o diga...
  • Embalagens de CD's:
Ah, mas isso é tão século XX...
  • Cabelo:
Quando já é desespero, você massageia o cocoruto com produtos que dizem domar crina de cavalo e omite que tenham químicos tóxicos, passa uma pasta ( pasta mesmo. "creme" é coisa de veado) pra não parecer um arbusto selvagem, delicadamente apruma aquela monstruosidade com uma escova de aço e tudo isso pra um dia, de repente, você ficar sabendo que todo ele vai cair antes dos 30. Osama Bin Laden deve ter passado por isso.
  • Garotas:
Ok, é só brincadeira...
  • Música de bailão:
É, fazer o quê? Essa é a minha geração. Perdi o Jimi, o outro Jimmy, o Dylan, o Gillan, o Waters, o Morrison... Nasci com um atraso de quase 40 anos. E pra quê?! Pelo batidão? Pelos trocadilhos infames do batidão? Pelas rimas prontas do pagode universitário? Pelo LATINO?!? Coisa-do-Diabo music mesmo é forró. E axé. E pagode. E sertanejo. E Tchê Music. Chega a me dar cãimbra na boca quando falo Tchê Music. Tchê Music. Tchê Music.Tchê-- ga.
  • Motoristas bem-intencionados que fazem sinal de "pode passar" num cruzamento e acabam mudando de idéia no último segundo, tentando passar a milhão por cima do pobre pedestre:
Acho que o título já é bem descritivo.
  • Pessoas que confundem os assuntos quando se metem em conversas alheias:
"-Também adoro a Angelina! Báh! E que mulher gostosa, hein!"

"-Eu tava falando da minha esposa."
  • Pessoas que gostam de dar informações inúteis sobre coisas triviais que ninguém presta atenção:
"-Olha lá um cara andando numa Honda 750 vermelha com freio a disco e aros 22, igual a do (cole aqui o nome do jogador de futebol), que joga no (cole aqui o nome do time)!!! "(empolgação excessiva)

"-Cóno, señor?"
  • Propagandas de tevê da nova geração:
Quer dizer... Nem é propaganda de verdade. São dois os tipos de propagandas da nova geração: os de empresas que estão preocupadas com você (encaixe-se em um dos grupos: Jovens que têm estilo ou Pais que se preocupam com o futuro) e as de empresas que estão preocupadas com questões socio-ambientais. Então, se quer salvar o mundo do Capitalismo voraz (que tanto os enriquecem, mas que adorariam esquecer só pra cuidar do seu conforto...) , ou do aquecimento global (que piora com as emissões das suas indústrias, mas que garantem que serão empatadas com a plantação dumas mudinhas.) , do conservadorismo idoso que odeia ração para cães ("BLASFÊMIA!") ou da extrema direita racista, opressiva e fervorosamente religiosa que não deixa você ser diferente e se encaixar num grupo jovem e bonito que tenha o mesmo estilo próprio, que é só seu e igual a todos, a não ser que você beba Coca Zero ou a nova Kuat ou até mesmo use um perfume que te deixa com a cara da estação que sempre é de festa e pegação, pois o mundo mudou, as pessoas mudaram e o marketing continua uma merda. Soou confuso pra você? Pois é... No final, o que sobra mesmo é um rosto alegre e bem-pago, o nome da empresa e uma mensagem revolucionária demais para que o adolescente gordo que assiste se levantar e mudar o mundo, ou moderna demais para que seja digerida pelo cérebro e se torne algo a mais do que um profile do Orkut. Prefiro a propaganda política. E alguém chame um médico, acho que a minha pressão subiu...
  • A Sessão da Tarde:
Eu consigo até descobrir qual é o filme que vai passar só escutando 5 seg. de comercial:

"(...) um trio do barulho..." [Os Três Jovens Ninjas... Ha! Esse vale pela atuação do Hulk Hogan]
"(...) vai arranjar muita confusão..." [Hmm... sei lá... Riquinho?]
"(...) porque esse time vai causar muitas trapalhadas..." [Cento e vinte e ois canais e a maratona de 'Air Bud-O cão amigo' é o que tem de melhor hoje. Acho que vou vender a tevê.]
"(...) bandidos muito malvados que estão de olho na grana..." [Esqueceram de Mim... Não sei qual da série e nem me importa]
"(...) tem um companheiro fora do comum... " [K9-Um policial bom pra cachorro, de novo?!]
"(...) tem um grande desafio pela frente..." [Achei que tinham parado de filmar Karatê Kid no sexto filme...]
"(...) um time de heróis vai tentar impedir..." [Power Rangers Turbo. Tava na cara.]
"(...) um guerreiro pra lá de atrapalhado..." [Esse é bala... Uma comédia, tá na ponta da língua... A-há!! Um Ninja da Pesada... tudo bem, confesso que simpatizo até com o filme. A parte de espionar a mansão usando uma corda é hilária.]
"(...) um grande sucesso de bilheterias..." [Não fala mais nada. Ahh... A Lagoa Azul. Um clássico.]

  • Listas pessoais de coisas:
Além de ser tão útil quanto mascar chiclete pra matar a fome, ninguém que lê uma lista pessoal diz: "Meu deus! Temos tanta coisa em comum!". O cúmulo do saco-cheísmo, da rabugência. Te digo... É fim de carreira.

terça-feira, 7 de outubro de 2008 Entrevista com a lenda - Parte 2

HKB:-Podemos começar falando da sua infância. Como foi a escola pra você?
***:- Duas palavras: "Horrível" (pausa inesperada, tento controlar a risada quando percebo a seriedade do tom de ***)
HKB:- Hm... Perdão, mas... Horrível é apenas uma, não?
***:- Eu... Hãmn... Disse palavra? Quis dizer sílaba!
HKB:- Ainda assim...
(pausa e olha pra baixo, pensativo)
***:- Desculpe, ainda estamos falando da escola?
HKB:-Talvez, no começo... Mas... voltando à entrevista, as pessoas dizem que você parece ser um homem muito centrado, conhecedor das coisas(solto uma risadinha ingênua) e principalmente muito paciente e calmo com as adversidades da vida. Isso é por causa da experiência que adquiriu com os anos, por que você tem alguma filosofia de vida, um mantra que leva em conta no dia-a-dia... Qual é o segredo de tantas virtudes?
***:-Bom... Eu acho que a vida tinha que ser como aquela música da propaganda de carro... A da selva. (cantando meio em falsete) "Don't worry, about a" (nessa parte ele confunde "thing" com "queen" e gagueja um pouco).
HKB:-Ah! O senhor é fã de Bob Marley?
***:-B-Bob Harlem?! Quem?
(mais uma das pausas desconfortantes.)
HKB:-O da versão original da música.
***:-A banda dos fantoches?
HKB:-Na verdade... Jamaicano... Da paz...? Buffalo Soldier, Woman No Cry... Não lembra?
***:-Hmm... É o macaquinho? Da propaganda?
HKB:-Não!
(Espera... São só três perguntinhas... Acalme-se e recomponha-se, homem!)
***:-Tá... Mas ele toca com os fantoches?
(26 segundos da pausa mais sarcástica que já consegui.)
HKB:-E qual foi o momento mais bacana da sua vida? Algum fato incrível, que você não cansa de contar nas rodas de amigos, ou que traz momentos de pura nostalgia... Qual é a sua experiência inesquecível que não poderia ficar de fora da sua biografia?
***:-Com toda a certeza, o aniversário de 72 de mamãe, saudosa dona ###, um amor de pessoa que tive o privilégio de ser filho.
HKB:-E como foi essa celebração, essa festança?!
***:-Começou numa tarde quente de verão. E tinha acabado de saber pela minha faxineira que comentou, durante um jogo de futebol que eu estava olhando, que tinha conversado com a manicure, que soube pela cabelereira, que ouviu a cunhada da sobrinha da amiga da professora do magistério, que estava ouvindo uma conversa atrás da porta quando um senhor alto, careca, de barba mal-feita e com um chapéu de pescador, daqueles cheios de iscas penduradas, disse no meio do corredor do hospital em que a tia estava internada com apendicite que... Disse que... (suspiro) Bem, eu nunca lembro dessa parte. O negócio é que eu, passando em frente à uma placa de "conselhos grátis", senti aquela sensação que dá em cima da orelha quando você sabe que esqueceu de algo e não lembra o que foi. Comprei um litrão de Coca e um vidro de palmito em conserva.
HKB:-E... Foi isso?
***:-O quê--Nãão... Calma lá... Já te conto o resto.
HKB:- Não, tudo bem... To calmo. Na boa, tranqüilo. Ahh.
***:- Éééé...
HKB:-(pigarro)
***:-Desculpe, foi um relapso d'um LSD que tomei numa festa disco dos anos 70. Acontece toda hora... Sabe que uma vez eu tava no meio de um--
HKB:-Voltando para a festa da sua mãe, senhor ***...
***:-Ah, claro! Bom, pra terminar, vou te dizer um negócio... No meu tempo não tinha esse negócio de "Vidjogueime", "Lãhauss" ou esse "Ragnaruto". Tive onze irmãos da mesma mãe. Ela queria um jogador de futebol, pra tirar a gente da pindaíba.
HKB:-Foi um encontro familiar, então?
***:-Nah, queísso! Seis já tinham morrido; um foi preso por roubar um porco; dois desapareceram no mar, tentando atravessar o pacífico, numa jornada de barco com destino ao Japão. Na verdade foi na volta pra cá, porque eles velejaram para o lado errado e aportaram na África do Sul; o décimo virou deputado.
HKB:-Que pena...
***:-Ah, que nada... A mãe até chegou a se acostumar com as acusações dos desvios de verbas na TV.
HKB:-Hm-hum
***:-E também não foram os outros convidados, já que mamãe sempre esquecia da data do próprio aniversário. Na verdade, a gente comemorou uns 3 meses antes do dia.
HKB:-Não foi bem uma festa, então... Não é?
***:-Bem, claro que foi! Mamãe estava lá não estava?! Eu estava lá, não?? Estávamos todos felizes, não?!... (pigarro)
HKB:-Ui.
***:-Continuando... A gente sentou no sofá, conversou, cantamos parabéns e comemos batatas recheadas. E... É isso.
HKB:-E o que tem de inesquecível nisso, PORRA??
***:-Fácil... Mamãe estava meio cegueta. Trocou o sal pela pólvora, não me pergunte como. Foi um lanche explosivo... (risadinhas) O resto você já sabe: Ela engoliu uma e... Bem... Vôou batata pra todo lado!(dá uma risadinha e de repente fica sério). É claro que depois que eu pecebi que a véia não tava fingindo, eu chamei uma ambulância...

(pausa dramática)

(nota-se a falta de profissionalismo quando me vejo aqui pulando no pescoço do entrevistado com fome de sangue)




-Como? Se eu conto essa história pra todo mundo? De qualquer jeito, meu advogado disse que eu consigo um Habeas Corpus em pouco tempo...